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Crítica – Watchers – Luís Louro

Nascido em 1965, Luís Louro é um ilustrador de banda desenhada, designer gráfico e autor, com vários trabalhos publicados. A sua primeira história, Estupiditia II foi publicada na revista Mundo de Aventuras em 1985. Depois de várias contribuições em inúmeras revistas e jornais, publicou alguns trabalhos a solo, sendo Watchers o mais recente destes.

No futuro apresentado em Watchers, um grupo de adolescentes (ou jovens adultos) usa a tecnologia para expor o que os rodeia. Sem filtros, explicações ou contexto, as filmagens dos drones são mostrados anonimamente para qualquer um que os siga através dos vários canais. Ainda que os primeiros vídeos sejam episódios engraçados no quotidiano, o conceito altera-se e rapidamente os canais passam a focar o perigo e a violência, sem restrições para a utilização de episódios mais particulares e pessoais.

Sentinel é um destes Watcher. Um jovem anónimo, sem resto, que consegue captar as cenas mais populares. Mas a que custo? Sentinel transforma-se, rapidamente, não apenas um observador, mas alguém que instiga a situações de conflito com o objectivo de alimentar o seu canal. Sentinel deixa de ser apenas alguém que retrata. Agora é, também, o catalisador para algumas destas cenas, alguém que aspira, até, a se tornar um justiceiro.

O mundo futurístico de Watchers está carregado de jovens sem futuro ou ambições que não conseguem ultrapassar obstáculos ou meras chatices. É um futuro possível, carregado de tecnologia. Mas é, também, uma crítica  à nossa sociedade, e à forma como as redes sociais e os meios de informação projectam uma perspectiva manipulada da realidade, criando falsas expectativas e aumentando o poder de ídolos efémeros.

Os Watchers querem seguidores e atenção. Este objectivo leva-os a esquecer a diferença entre o certo e o errado. E acabam por expor, tanto os outros, como a eles próprios. São movidos pelo desejo de feedback instantâneo e, para isso, exploram perspectivas envenenadas de pessoas comuns e deixam-se levar pelos desejos mais primitivos de sexo e sangue.

Na realidade, esta é uma análise que podemos transpor para as actuais redes sociais, cheias de falsas notícias, perspectivas contaminadas com armadilhas emocionais e informação misturada com sensacionalismo. Em Watchers este conceito de desinformação é levado a um novo nível, numa narrativa lógica, bem concebida e coerente. Watchers pode ter diversas leituras e cabe ao leitor encontrar a sua própria interpretação da história.

Este livro foi publicado em Portugal pela Asa em duas versões com finais diferentes. Para finalizar, realço que nas janelas de comentários dos canais dos Watchers foram usados os nicks de personalidades do meio da banda desenhada português (editores e outros autores) como uma piada privada para os que os conhecem.

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